POLÊMICA NA LITERATURA INFANTOJUVENIL

07 - mar /2012

 

Polêmica na literatura infantojuvenil: caráter instrumental a serviço de escolas e famílias ou força humanizadora de indiscriminada riqueza?

 

Não confunda obra literária com livro didático

Yolanda Reyes, Instituto Espantapájaros, Bogotá, Colômbia.

Assim como você procura muito mais que ensinamentos explícitos quando lê um romance de García Márquez, seu filho busca na literatura muito mais que um ensinamento moral. A literatura se move na esfera do simbólico e apela à experiência profunda dos seres humanos. Desconfie das mensagens explícitas e das morais óbvias. O mercado está cheio de livros infantis que "disfarçam" – sob o título de "conto" – as intenções didáticas dos adultos. Aprenda a diferenciar os manuais de autoajuda das obras literárias. A literatura não pretende explicar valores, letras do alfabeto, regras de polidez ou mensagens ambientais. Leia nas entrelinhas e não escolha um livro só pelo seu tema, mas pela sua forma e pela maneira como um autor constrói uma voz e um mundo próprios. Desconfie dessa linguagem pseudoinfantil, cheia de diminutivos e de histórias light, onde os protagonistas são tão perfeitos como ursos de pelúcia. (Seu filho vai ser o primeiro a "não engolir a história".) Os livros infantis podem ser atrevidos, transgressores, irreverentes, sutis, inteligentes, tristes... Todas essas nuances, que constituem a infinita variedade da experiência de um ser humano, alimentarão o mundo interior das crianças e lhes darão as chaves secretas para descriptografar muito sobre sua própria vida e sobre as emoções, sonhos e pesadelos sobre fantasia e realidade.

 

Fonte: Revista Emília – março de 2012 – Boletim 5

 

 A literatura para crianças e jovens, um saco de gatos?

Dolores Prades
 
Parte considerável da produção de livros nessa área fica a serviço de exigências escolares, de motivações e conteúdos que obedecem a uma lógica, na maior parte das vezes, distante do universo dos leitores. E não precisamos ir muito longe para procurar exemplos. Basta pensar nos estragos provocados pelo pensamento contemporâneo do politicamente correto, para dimensionar o grau de interferência e até mesmo de censura a que os livros podem ser submetidos.
Com inúmeras concessões, assumindo a função de “prestar serviço” a uma causa qualquer determinada pelo mundo dos adultos, a literatura infantojuvenil amadurece com fortes traços instrumentais. Isto quer dizer que ela não nasce e nem se desenvolve como um fenômeno estritamente literário. Esta é sem dúvida uma das principais marcas desta literatura: contar sempre com a interferência de um mediador entre o livro e o leitor.
Existe, portanto, a dicotomia: uma função instrumental que é aceita e serve a escola e outra, à margem dessa, que se refere ao verdadeiro papel da literatura.  Essa questão representa uma das grandes perversidades do nosso mercado de literatura infantojuvenil. E um dos grandes equívocos conceituais sobre o entendimento do que é literatura e de seus desdobramentos.
 
Fonte: publishnews.com.br/colunas, 01-08-2011.
  

Comentário de Cecília Meireles, a respeito de Lewis Carroll:

  Os que julgam que clareza é qualidade indispensável a um livro infantil ficarão surpreendidos com o interesse por um livro tão obscuro como se o autor escrevesse apenas para certos adultos.”

 

A missão da literatura infantil é expandir o universo dos pequenos

Peter Hunt
 
“É no mínimo arbitrário supor que os pequenos desejam sempre histórias com final feliz. A fantasia deles é muito maior que a dos adultos.”
 
De acordo com o pesquisador britânico, a produção de literatura infantil deve ser encarada com mais seriedade e rigor técnico pelos adultos – em especial, pelos autores e críticos da área, que muitas vezes subestimam a inteligência das crianças. A missão dos educadores é fazer as crianças perceberem como a leitura de um bom texto literário pode ser interessante e desafiador, não apenas um trabalho árduo. Além disso, a leitura de um mesmo livro pode ser feita de maneiras diferentes, com leitores de diferentes faixas etárias. Ele reforça: “é preciso saber escutar a garotada”. Afirma em seu livro Crítica, Teoria e Literatura Infantil: “As orações terminam em pontos finais. As histórias não”. Isso significa que se trata de uma aspiração impossível: saber com certeza como uma criança lê uma determinada história e como fará a interpretação dela.
 
Fonte: Revista Nova Escola, agosto de 2011.
 
 
 
A literatura e a formação do homem
Antonio Cândido
 
(...) Quero dizer que as camadas profundas da nossa personalidade podem sofrer um bombardeio poderoso das obras que lemos e que atuam de maneira que não podemos avaliar. Talvez os contos populares, as historietas ilustradas, os romances policiais ou de capa-e-espada, as fitas de cinema, atuem tanto quanto a escola e a família na formação de uma criança e de um adolescente.
Isto leva a perguntar: a literatura tem uma função formativa de tipo educacional?
 
(...) Seja como for, a sua função educativa é muito mais complexa do que pressupõe um ponto de vista estritamente pedagógico. A própria ação que exerce nas camadas profundas afasta a noção convencional de uma atividade delimitada e dirigida segundo os requisitos das normas vigentes. A literatura pode formar; mas não segundo a pedagogia oficial, que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa, - o Verdadeiro, o Bom, o Belo, definidos conforme os interesses dos grupos dominantes, para reforço da sua concepção de vida.
 
(...) ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela, - com altos e baixos, luzes e sombras. Daí as atitudes ambivalentes que suscita nos moralistas e nos educadores, ao mesmo tempo fascinados pela sua força humanizadora e temerosos da sua indiscriminada riqueza. E daí as duas atitudes tradicionais que eles desenvolveram: expulsá-la como fonte de perversão e subversão, ou tentar acomodá-la na bitola ideológica dos catecismos, (...) Dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em que atua com toda a sua gama, é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta.
 
(...) Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.
 
(...) Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver.

 

qua, 03/07/2012 - 14:44
Sílvia Fernandes
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Autores e leitores, publiquem opiniões.

Caríssimos autores e leitores atentos. Publiquem opiniões, comentários, sugestões etc. etc.
Isso é importante. Vamos resgatar a literatura. Silvia
 

sex, 03/09/2012 - 15:28
Sílvia Fernandes
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Um bom exemplo

Do livro “Boneco Maluco”, de Elias José, editora Projeto.
 
CONTA
O dinheiro não conta? / Então me conta, / afinal de contas, / como o cara paga a conta?
 
ECOLÓGICOS
Quem mata / a mata / a si mesmo / mata. / Comete um crime / quem quebra o galho / de parentes e amigos?
 
Dois poemas deliciosos.  Simples assim!